quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Adoniran Barbosa - 1975

 

1 - No Morro da Casa Verde
Adoniran Barbosa
2 - Vide verso meu endereço
Adoniran Barbosa
3 - Tocar na banda
Adoniran Barbosa
4 - Malvina
Adoniran Barbosa
5 - Não quero entrar
Adoniran Barbosa
6 - Samba italiano
Adoniran Barbosa
7 - Triste Margarida (Samba Do Metrô)
Adoniran Barbosa
8 - Mulher, patrão e cachaça
Adoniran Barbosa - Oswaldo Molles
9 - Pafunça
Adoniran Barbosa - Oswaldo Molles
10 - Samba do Arnesto
Adoniran Barbosa - Alocin
11 - Conselho de mulher
Adoniran Barbosa - Oswaldo Molles - João Belarmino dos Santos
12 - Joga a chave
Adoniran Barbosa , Oswaldo França
 
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Reproduzo o texto da contracapa, assinado por Antônio Cândido.
 
"Adoniran Barbosa é um grande compositor e poeta popular, expressivo como poucos; mas não é Adoniran nem Barbosa, e sim João Rubinato, que adotou o nome de um amigo funcionário do Correio e o sobrenome de um compositor admirado. A ideia foi excelente, porque um artista inventa antes de mais nada a sua própria personalidade; e porque, ao fazer isto, ele exprimiu c realidade paulista do italiano recoberto pela terra e do brasileiro das raízes europeias. Adoniran Barbosa é um paulista de cerne que exprime a sua terra com a força da imaginação alimentada pelos heranças necessárias de fora.
 
Já tenho lido que ele usa uma língua misturada de italiano e português. Não concordo. Da mistura, que é o sal de nossa terra, Adoniran colheu a flor e produziu uma obra radicalmente brasileira, em que as melhores cadências do samba e da canção, alimentadas inclusive pelo terreno fértil dos Escolas, se choram com naturalidade às deformações normais de português brasileiro, onde Ernesto vira Amesto, em cuja casa nós
fumo e não encontremo ninguém, exatamente como por todo esse pais. Em São Paulo, hoie, o italiano está na filigrana.

A fidelidade à música e à fala do povo permitiram a Adoniran exprimir a sua Cidade de modo completo e perfeito. São Paulo muda muito, e ninguém é capaz de dizer aonde irá. Mas a cidade que nossa geração conheceu (Adoniran é de 1910) foi a que se sobrepôs à velha cidadezinha caipira, entre 1900 e 1950; e que desde então vem cedendo lugar a uma outra, transformada em vasta aglomeração de gente vinda de toda
parte. A nossa cidade, que substituiu a São Paulo estudantil e provinciana, foi a dos mestres-de-obra italianos e portugueses, dos arquitetos de inspiração neo clássica, floral neo colonial, em camadas sucessivas. São Paulo dos palacetes franco libaneses do Ipiranga, das vilas uniformes do Brás, das casas meio francesas de Higienópolis, do salada da Avenida Paulista. São Paulo da 25 de Março dos sírios, da Caetano Pinto dos espanhóis, das Rapaziadas do Brás, — na qual se apurou um novo modo cantante de falar português, como língua geral na convergência dos dialetos peninsulares e do baixo contínuo vernáculo. Esta cidade que está acabando, que já acabou com a garoa, os bondes o trem da Cantareira, o Triângulo, as cantinas do Bexiga, Adoniran não a deixará acabar, porque graças a ele ela ficará, misturada vivamente com a nova, mas, como o quarto do poeta, também "intacto, boiando no ar".

A sua poesia e a sua música são ao mesmo tempo brasileiras em geral e paulistanas em particular. Sobretudo quando entram (quase sempre discretamente) as indicações de lugar, para nos porem no Alto da Mooca, na Casa Verde, na Avenida São João, na 23 de Maio, no Brás genérico, no recente metrô, no antes remoto Jaçanã. Quando não há esta indicação, a lembrança de outras composições, a atmosfera lírica cheia de espaço que é a de Adoniran, nos fazem sentir por onde se perdeu Inês ou onde o desastrado Papai Noel da chaminé estreita foi comprar Bala Mistura: nalgum lugar de São Paulo. Sem falar que o único poema em italiano deste disco nos põe no seu âmago, sem necessidade de localização.

Com os seus firmes 65 anos de magro, Adoniran é o homem da São Paulo entre as duas guerras, se prolongando na que surgiu como jiboia fuliginosa dos vales e morros para devorá-la, lírico e sarcástico, malicioso e logo emocionado, com o encanto insinuante da sua anti voz rouca, o chapeuzinho de aba quebrada sobre a permanência do laço de borboleta dos outros tempos, ele é a voz da Cidade. Talvez a borboleta seja mágica; talvez seja a mariposa que senta no prato das lâmpada e se transforma na carne noturna das mulheres perdidas. Talvez João Rubinato não exista, porque quem existe é o mágico Adoniran Barbosa, vindo dos carreadores de café para inventar no plano do arte a permanência da sua cidade e depois fugir, com ela e conosco, para o terra da poesia, ao apito fantasmal do trenzinho perdido da Cantareira."
 
O Homem Traça diz: ROAM!
 
   

Triste Margarida (Samba Do Metrô)

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